segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Duelo



- John Carmichael Montgomery, esta cidade é pequena demais para nós dois!

- Poxa, Will, tudo bem que esta cidade é tão pequena que as formigas daqui são obrigadas a andarem em fila indiana, mas não precisa...

- Foi só uma frase, ok?

- E só porque aqui é o Velho Oeste precisa usar uma frase mais velha do que andar pra frente, dormir deitado e comer sentado? Acho que você consegue fazer melhor do que isso, não? Vamos lá, tente, pelo menos!

- Está certo. Então... Aham. Err... John Carmichael Montgomery, nos encontramos de novo!

- Aagh, outra escolha ruim, já que não nos separamos desde aquele lamentável incidente com os ases de copa, há poucos minutos atrás. Quantos deles você tinha, mesmo? Sete? E, pra falar a verdade, eles não chamariam tanto a atenção se o naipe não estivesse da cor verde...  

- Eu já falei que não foi minha culpa, raios! 

- Então você vai me dizer que não achou estranho que, no lugar da figura do naipe, havia uma silhueta do rosto de Abraham Lincoln?

- Na verdade não, John.

- E porque não? Estava ocupado cuidando os demais jogadores para que estes não trapaceassem?

- Não, eu estava tentando limpar as mãos da tinta que saía das cartas. Se bem que aquilo parecia mais carvão.    

- E a que conclusão você chega sobre isso,Will?

- Que da próxima vez em que eu for jogar poker eu devo usar luvas?

- Não! Quer dizer que o baralho era mais falso do que whisky indiano!

- Whisky indiano? Isso também? E onde está o xerife que não toma uma providência contra isso, John?

- Bem, no momento ele está tomando conta do dinheiro que o pessoal apostou em nós e tomando um whisky, também. E verdadeiro, eu creio.

- Que lástima, John. Bem, vamos acabar logo com isso que...

- Acho que desta vez você acertou em cheio, já que, neste caso, “acabar” é o termo mais do que correto.

- “Acertou em cheio”? Boa essa, John! He, he.

- A vida é assim mesmo, Will, se acerta quando menos se espera. E, pensando bem, já que você não sabia que o baralho era falso, não temos porque duelar mais. Certo?

- Errado! Nós falamos ao pessoal daqui que iríamos duelar e não podemos dar pra trás! Se fizermos isso irão pensar que somos o quê?

- Políticos?

- Covardes, isso sim, John! Covardes e sem palavra!

- O que ainda é melhor do que ser político.

- Pois que seja! O que importa é que, se desistirmos agora, todos nos considerarão mais fracotes do que um assistente de prefeito asmático que perdeu na queda de braço para um moleque que ainda nem tem idade para espirrar!

- E daí? O que importa o que as outras pessoas irão pensar de nós?

- Pra mim importa sim, John! Imagine ir a um armazém e o dono do local se recusar a atendê-lo por achar que você tem a “doença da covardia”! Você eu não sei, mas eu não quero isso pra mim, não!

- Muito bem, então eu desisto do duelo e fico com fama de covarde. Melhor um - falso - covarde vivo do que um pressuposto corajoso morto.    

- Falso é, John?

- Sim, melhor ser um falso covarde do que um covarde falso, não acha, Will? E, sinceramente, deveriam criar métodos mais civilizados para se resolver uma contenda do que armas de fogo.

- E o que você queria? Pedras? Bastões de madeira? Arco e flechas? E se você pode viver com isso, por mim tudo bem. 

- Posso e VOU, Will. Agradeço por mudar de ideia.

- Pode me chamar de Bill. Buffalo Bill.

33 comentários:

  1. Jacques,

    Que maluquice, parece um filme de faroeste que vi, um faroeste na Manchúria que acaba em duelo no Deserto de Gobi, o título, caso vc queira ver a comédia western é Os Invencíveis.

    abraço
    Marcos

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  2. Muito bom! Poderia perfeitamente fazer parte de um filme de comédia.
    E.. pelo menos esse duelo foi apenas verbal. Adorei!

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  3. Muito show amigo, digno de ser aplaudido de pé. Concordo com o comentário acima, ri muito em algumas partes.
    E a opinião de John, melhor ser covarde do que políticos essa foi demais,kkkkkk
    Um grande abraço amigo.

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  4. Jacques, tudo bem, guri de Pelotas?
    Ri bastante por aqui...

    fiquei pensando em tantos 'duelos' que temos nos dia-a-dia, não só de pontos de vista; mas ampliando um pouco, do que é real e do que é expectativa, por exemplo; além dos duelos nossos, de nossas coisas existenciais.

    Tu escreveste de uma forma sempre com esse diferencial, que numa segunda leitura, acaba se percebendo mais algumas coisas, mesmo que nem tenha sido de todo a tua intenção (acho!) :)

    Abração e ótimos dias!

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  5. Oi, Jacques. Interessante e muito criativo esse "duelo" de palavras. Conversa estranha com cowboys esquisitos, rss. Vejo muitas metáforas e alegorias no seu texto, que remetem às falcatruas dos políticos. E isso torna ainda mais engraçado o diálogo.

    Muito bom, Jacques!

    um abração.

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  6. Oi Jacques,

    Tudo bem? Quando vi o nome de Abraham Lincoln lembrei do político que ele foi, com empenho e patriotismo. Agora ele virou herói em filme de suspense, mas ainda sim o vejo como um homem que duelou contra o bem e o mal. E aí você inseriu a questão da covardia que percebo tão presente na nossa política. Não é preciso um Buffalo Bill no Brasil, pois o próprio STF já é palco de de grandes duelos. Lá não se usam armas, mas se destaca a falta de ética e valores como ausência de armas menos civilizadas.

    Boa semana.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Confesso que não sou muito fã de filmes do gênero, mas esse texto foi bem interessante.

    Abraços

    http://rebobinandomemoria.blogspot.com

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  9. Olá Jacques, boa noite !!

    Me lembro bem desses personagens das revistas de faroeste que eu lia a muito tempo, dos filminhos da TV Record...Mas, os teus diálogos como sempre, batem de dez a zero nos diálogos originais..heheheeh.
    O teu senso de humor, combinado com a bondade do teu coração, deram o tom super agradável em seu texto. E que frase hein, "melhor um falso covarde vivo,do que um pressuposto corajoso morto.", é a maior e a melhor, adorei!!

    Linda noite, parceiro amigo!

    BJos da Lu...

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  10. Olá Jacques! Agora me lembrei das convenções sociais que "obrigam" o cidadão a viver mais pelo outrem do que por si. Muito bom o texto. Abraço!

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  11. Olá Jacques,
    Muito bacana o post de hoje!
    Ao ler, fiquei imaginando toda a cena em minha mente e tive que rir sozinho! E de fato ele se saiu bem, fugindo à regra dos filmes de velho oeste. Nossa, e por falar em covardia e política, como citou no texto, acabei de publicar um texto sobre o assunto. Bela coincidência.

    Abraços, Flávio.
    --> Blog Telinha Critica <--

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  12. Olá!Boa tarde!
    Jacques!
    direto ao foco:
    ... considerando-se como duelo a luta entre duas pessoas, com armas iguais, com o propósito de lavar a alma com sangue, isso mudou um pouco, só tiramos o sangue e colocamos a imposição de idéias a qualquer custo... não há respeito à opinião dos outros... somos o protótipo do duelista, que quer vencer por força, mesmo que a arma empregada sejam as suas idéias...e o primeiro a sacar a arma e a abater seu adversário são os políticos covardes ou covardes políticos, que do seu alto muro se coloca entre os interesses comuns e o levar vantagem sempre...
    Boa terça feira!
    Abraços

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  13. Desde que o mundo é mundo, o duelo existe e as armas foram as mais variadas. Hoje usamos como arma branca as palavras que as vezes tem tanto peso que matam como se mata com uma arma de fogo. Cada um quer que seus projetos, suas idéias, suas teses sobreponham sobre a dos outros. Acho que é isso que aconteceu nesse seu diálogo que parece um faroeste a "las palavras".
    Beijokas doces Jacques.

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  14. Olá Jacques,

    Fiquei imaginando esse duelo, muito criativo!

    Abçs

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  15. OI JACQUES!
    UM DUELO, EM QUE NINGUÉM MATA, MAS NA CERTA HOUVE UM VENCEDOR,O POVO, QUE PODE AVALIAR A ATITUDE DOS DOIS QUE NO MOMENTO DO "VAMOS VER" CONVENCERAM UM A OUTRO QUE NINGUÉM ESTAVA ERRADO...
    ABRÇS
    zilanicelia.blogspot.com.br/
    Click AQUI

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  16. Olá, Jacques!
    Meu amigo, os duelos surgiram para resolver desavenças, mas nunca passaram disso que você descreveu no texto: a busca pela vitória sobre o outro, independentemente de alguém estar certo ou não.
    Ainda se faz muito disso hoje em dia, não é mesmo?
    Muito melhor ser um falso covarde... No final, ninguém foi mais corajoso do que ele!
    Um grande abraço!

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  17. Oi Jacques
    Muito bom! Vc sempre é bom, mas dessa vez vc se superou. Dei muita risada, mas é a triste realidade, quando fala que covarde e sem palavra é melhor que ser político, infelizmente é assim no nosso país, e o legal que vc faz uma salada, que dá muito certo no final, misturando filme de faroeste. Adorei!
    Bjão. Fique com Deus!

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  18. Amigo Jacques,
    Neste duelo, quem morreu fomos nós, leitores, mas de ri.
    Os duelos do faroeste eram mais justos do que os urbanos modernos, pois, sempre estamos duelando com o Leão (do imposto de renda), com a burocracia e buracos, bandidos armados até os dentes, políticos e com o SUS, em que nunca ganhamos um.
    Amigo, a sátira está muito oportuna e muito bem engendrada como sempre.

    Abraços.

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  19. Jaques! Que imaginação! Adorei este duelo verbal ao sol escaldante de uma cidadezinha do velho oeste (tem que imaginar, né....)! Você escreve bem demais! E tem um "baita" dum senso de humor! Obrigada pelo carinho e pelos comentários sempre tão gentis!
    Desculpe pela demora em responder!....
    Um abençoado e feliz final de semana!
    Abraço carinhoso!
    Elaine Averbuch Neves
    http://elaine-dedentroprafora.blogspot.com.br/

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  20. Jacques,
    menino inteligente
    Você sempre me desconcerta. E este duelo de palavras.Me parece que ultimamente está sendo sempre assim, nunca sabemos se o baralho era falso ou não. Pior que covardes e sem palavras? Sabe Jacques nem havia pensado nisso. Você me fez rir muito.Excelente e criativa alusão. E é o que eles são. Prometem que vão nos salvar e na hora pernas prá que te quero? Melhor ser um covarde vivo.

    Um lindo dia
    Bjs

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  21. Gos tei e concordo+- c a Elisa quanto ao "ser um covarde vivo, mas odeio covardes..
    Fujo dos duelos e tal...só por saber q "um vai morrer e isso me faz mal.
    Acho tudo maquinado nos filmes e até nem tenho visto nenhum rs ;
    Fujo desses filmes!
    Os duelos da vida real q ando assistindo ultimamente são os da "política brasileira, "mascarados e com essa tal doença da covardia, mas ganância não falta... sem vergonhas q só trapaceiam, e pensam o o povo é bobão, enfim somos mesmo ..."Democracia "só na Constituição!
    Eu to muito gripada e sem chance agora de entender o duelo q acabou, ora! Mudaram de ideia "ótimo! Tu és bonzinho mesmo...

    Cria um diálogo "do teu jeito" entre dois políticos; que tal?
    DilMa e FHC (?
    Vai ser "pândego! nossa, faz tempo eu ñ usava esse adjetivo.
    Cara, "palavras têm Poder, entendeu?
    BEIJÃO AMIGO/ TO DESCONCENTRADA !!

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  22. OI AMADO GOSTEI DO TEU ESPAÇO SEGUINDO VIU!!!
    ____8888___88888888___8888
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    BEIJO NO CORAÇÃO DEUS TE ABENÇOE!!!
    JESUS TE AMA!!!NÃO ESQUECE TÁ!

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  23. Belo texto e com seu humor habitual, e o final surpreendente Buffalo Bill.

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  24. E ele venceu, não com armas, mas com palavras. Certamente melhor um falso covarde do que um covarde falso (lados dos políticos). Uma reflexão sempre com humor hein.
    Grande Abraço

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  25. Jacques, quanta verdade existe nas entrelinhas de seu texto! Você se utiliza de assuntos sérios e nos faz rir com os diálogos criados. Eu me vi pensando na falsidade dos jogos, sejam sociais, políticos, competitivos... Na inutilidade de inúmeras contendas, da guerra, da preocupação com o que os outros podem dizer de nós. Você foi extraordinário. Bjs.

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  26. Olá Jacques,

    Sua criatividade para abordar assuntos relevantes com humor é impressionante.
    Os duelos marcaram a história e se antes eram travados com armas de fogo, hoje o são com contendas e disputas vãs. Valores precisam ser mudados para que as relações se tornem saudáveis.
    Bem andou o John em desistir do duelo, mesmo à custa de ser considerado um covarde (que proveito real há em se valorizar aparências?). É melhor mesmo ser um falso covarde do que um covarde falso.
    Podemos mudar muita coisa num momento de discernimento como este do John. Vidas poderão ser preservadas em questões de segundos.
    Os seres humanos precisam apoiar-se no diálogo para resolver conflitos ou contendas. Para isto existe uma ótima ferramenta, ou seja, a palavra. Armas de fogo e violência geram apenas mais violência, discórdia, sofrimento e destruição. Com elas nunca haverá paz nas relações entre pessoas e nações.

    Adorei o inteligente e divertido diálogo.

    Ótimo final de semana.

    Abraço.





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  27. Cara, o lance do político foi muito bom! HEHE' Abraham Lincolm >.< Tô com vontade de ver aquele filme xD Sua habilidade pra fazer diálogos inteligentes e dinâmicos é admirável.
    Até mais ;D

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  28. Oi Jacques!

    Muito boa história. Realmente, ainda bem que os tempos mudaram e actualmente as coisas se resolvem com diálogo! Acho que foi a partir deste dialogo com o Bufalo Bill que se deu um pequeno passo para civilização.

    Desculpa a ausência, mas tive um vírus informático que me impediu de usar a Internet e o computador durante 24h. Só o Combofix resolveu isto. Depois andei a moderar e responder aos comentários de todos.

    Tenta usar o Internet Explorer para postar, usa o 9 que é o novo. Se o problema persistir, avisa-me. Podemos falar pelo chat do Facebook.

    Obrigada pelas visitas e comentários.

    Boa sorte!

    Abraços

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  29. Oi Jacques

    fiquei imaginando esta conversa entre dois valentões do tipo daqueles que encaravam duelos, embora o que aqueles tipos menos faziam era falar, os olhares e o zunido das balas falavam por eles, estes seus valentões neste diálogo tão engraçado e sátiro, estão ótimos.

    Obrigada por sua presença sempre carinhosa e atenciosa.

    Abraços e bom domingo!

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  30. Boa noite Jacques!!

    Um diálogo engraçado de faroeste. Muito bom!! As cenas foram todas aparecendo à medida que ia lendo...

    Bom fim de semana!!

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  31. Achei interessante o fato do diálogo destacar a fragilidade do conceito de herói ao transformar o homem da lei em um dos vilões, num mundo cercado de trapaceiros fica difícil apontar quem de fato é o herói, situação curiosa, principalmente em tempos de eleição. O duela retratado me fez lembrar da bipolaridade da política nas cidades do entorno da minha, tal como no seu conto, aqui não se tem como apontar com precisão quem de fato são os bandidos... Só não tenho dúvidas de que a cidade seja pequena demais para tantos trapaceiros!

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  32. Por trás do humor uma pitada de ironia. rsrsrsr Gostei bastante.
    beijos!!!!!

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  33. Olá Jacques, o início deste, onde se retrata o clichê, é bem legal. Vivemos em um círculo social demasiadamente clichê, onde cada qual apenas reproduz o que já é sabido de todos, enfim, é uma monotonia deprimente.

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