quarta-feira, 11 de abril de 2012

Monstro





Castelo Frankenstein, em uma noite tempestuosa de um passado longínquo.

- ÍGOR!

- Sim, Mestre?

- Prepare a girândola tríctica e a destriveladora coaxial! Será esta noite que nossa criatura ganhará VIIIIDAAAAA!!!! HÁ, HÁ, HÁ, HÁ, HÁ!

- Sim, Mestre.

- Sua empolgação é deveras contagiante sabia, Ígor? Vou me vingar de todos que disseram que eu estava louco. Eu, Dr. Victor Von Frankenstein, LOUCO? Pode acreditar que disseram isso, Ígor?

- Sim, Mestre.

- Você disse isso porque concorda que estou louco ou porque gosta de dizer “Sim, Mestre”?

- Eu...

- NÃO IMPORTA! Hoje eu romperei com os grilhões que prendem a Humanidade aos desmandos ignóbeis da ética e do medo primordial de ascendermos ao próximo estágio de evolução intelectual! Me tornarei...

- Alguém que não deixarão entrar nem em batizado de sobrinho de prefeito, Mestre?

- Bem... Isto também, caro servo.  O preço da genialidade é a eterna inveja dos talentosamente menos favorecidos, sabia? Não, óbvio que não. E você me fez lembrar agora dos aldeões tacanhos e irascíveis que vez por outra vem até o meu bucólico e inofensivo refúgio intelectual com suas tochas, forcados, enxadas e outros utensílios domésticos inapropriadamente utilizados com o intuito de me desferirem danos anatômicos de natureza irreversível até mesmo para mim. Sabia que uma vez eu vi um deles me ameaçar com uma tábua de cortar queijo? Que coisa, não?

- Sim, Mestre.

- Eles aparecem aqui para me interromper em meses intercalados...  Acredito que isto ocorra porque deve ser o tempo que leva para conseguirem se livrar do cheiro daquele grude amorfo que você chama de “ensopado” que jogo neles, Ígor. Tolos ignóbeis. Eu me pergunto quem, QUEM teria autoridade suficiente para mandar naquele que pode abalar os alicerces de milhares de anos de evolução humana, ahn?

- Sua... Amada mãezinha, Mestre?

- Em teoria, sim, Ígor. Mas esta foi apenas uma pergunta retórica fruto de minha pressuposta, incompreendida e saudável megalomania. Mas estou divagando mais do que o normal... Normal? HÁ! Como se esta palavra vã tivesse algum significado nesta sala... ÍGOR! IONIZAÇÃO   ENERGÍSTICA MÁXIMA! AGORA!

DDDDZZZZZTTTTTT!

O corpo da Criatura é tomado por descargas elétricas incandescentes.  Após a luminosidade desaparecer, ela relutantemente abre os olhos e murmura:

- Uuuughhhh...

Ígor cautelosamente se aproxima dela e pergunta:

- Sim, Monstro?

- Uuuughhhh...

- Sim, Monstro?

- E essa agora? Acabo de inadvertidamente criar o moto-perpétuo... Morra de inveja, Leonardo Da Vinci. Ai, ai... Se esta Criatura for um fracasso, pelo menos poderei usá-la para afugentar os aldeões de vez. Onde é que já se viu classes baixas se rebelando contra seus mandantes? Eles acham que aqui é o quê? A França? E a Revolução Francesa foi no século passado. E quem vive de passado é museu. Museu e minha Criatura, feita de pedaços exumados de corpos dos... Aaahh... Deve ser por isso que eles me importunam tanto, por eu, aham, o Ígor roubar partes dos corpos de seus entes queridos do cemitério. Bem que eu imaginava que eles não eram inteligentes o bastante para reconhecerem meu gênio e minha obra. Vai ser interessante - e até irônico - ver a Criatura perseguir os pobres camponeses, já que, neste caso, literal e figurativamente, o passado voltará para assombrá-los.     

 - Uuuughhhh...

- Sim, Monstro?

- Eu mereço! Pensando bem, acho que mereço, sim.
                

22 comentários:

  1. hauahuahauhauhauhauhuahua

    Esse merece continuação.

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  2. Muito bom! Agrado-me muito da forma que escreves, com ênfasenos diálogos. É muito interessante. A história de Frankenstein é muito simbólica e a releitura que fizeste dela, deixa as coisas mais explícitas. O preconceito, o busca por poder humano, a segmentação social. Parabéns amigo. Gostei muito

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  3. Eu pensava que moto perpétuo fosse uma moto movida a energia solar. XD

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  4. Jacques,
    Suas releituras sempre críticas e uma delícia de ler. Adorei mais esse texto que trouxe à luz alguns problemas tão atuais.
    Beijokas doces!

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  5. Oi Jac,

    Só você para reunir Leonardo da Vinci e Frankenstein e trazer esse agradável texto adaptado a realidade. Penso que esse mostro existe a cada esquina porque o poder é o que conduz a esse cenário bucólico.

    Beijos.

    Lu

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  6. Sim, mestre Jacques!
    Muito bom, aqui percebi o eterno conflito: criador versus criatura. E quem é um ou outro? Quem é o monstro?
    Só dentro do criador é possível enxergar muitas criaturas.

    Deves saber da origem do Frankenstein, sabe?
    Abração! Mais um ótimo diálogo!

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  7. Oi Jacques,
    Sempre o poder, mais ainda nas mãos dos que não sabem utilizá-lo.
    Gostei muito. O mostro anda a solta assombrando as nossas súplicas. Difícil enfrentá-lo com tantas armas a seu favor.
    Beijos,

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  8. Oi Jacques,
    Na verdade, a família Frey é originária de Alsácia (Alsace, em francês), uma região da França,junto às fronteiras alemã e suíça. Sua capital e maior cidade é Estrasburgo. Foi essa família quem fundou Fraiburgo, graças ao Sr. René Frey, cuja esposa, chamava-se Maria Frey.
    Portanto, não há origem na esposa de Odin, Freya (Deusa da mitologia nórdica). Mas a sua lembrança foi coerente.

    De fato, a Cissa, também é chegada a um suspense. Mas não me inspirei em ninguém não, apenas em minhas vozes internas..., rsrsss.

    Obrigada por sua agradável presença e participação na Estória de Amália.

    Beijos,

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  9. OI JACQUES!
    GOSTEI DE SUA HISTÓRIA,MAS ACHO, QUE O FRANKENSTEIN, VAI APRONTAR AINDA, VOU VOLTAR PARA LER...
    ABRÇS

    Zilanicelia.blogspot.com
    Click AQUI

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  10. Você consegue buscar na ficção os pontos que o inspiram a trazê-la, de forma magnífica, para a realidade. E essa postagem terminou deixando a sensação de que foi apenas o primeiro capítulo.

    Grande beijo!

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  11. Ola Jacques!
    Excelente releitura de um clássico. Os diálogos são incríveis e prendem a nossa atenção. Gostei.

    Abraços Flávio.
    --> Blog Telinha Crítica <--

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  12. Oi, amigo Jacques!
    Que história fantástica!
    Nós vivemos criando monstros para nos devorar (vide políticos), por isso esse romance será sempre atual.
    O bom de sua versão é que terminou em final feliz para todos. Houve drama e, sobretudo, bom humor, mas não houve terror.
    Quem transforma horror em humor merece louvor.

    Parabéns pelo tirocínio!

    Abraços!

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  13. Oi Jacques! Do passado um conflito muito atual. O confronto entre a individualidade e a norma coletiva. Genial, como sempre, a sua escrita. Abraços!

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  14. Grata pela visita e feliz por teu regresso: muito importante esta menagem. Te abraço
    BShell

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  15. Oi Jacques,

    nos fazer rir e pensar com o terror é arte que poucos conseguem.

    Não sei não, mas fiquei com a impressão que o Igor é o grande mestre desta história, mesmo sendo o abobado assistente, o que prova que a simplicidade, mesmo e sem perceber e até por isto, sabe sempre a verdade. A megalomania cega.

    Beijos

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  16. Oi Jacques
    Vc consegue tem uma criatividade realmente que beira a genialidade, como vc citou do Da Vinci (kkkkk). É muito gostoso ler os seus textos, a gente ri e reflete ao mesmo tempo.
    Bjos. e um ótimo final de semana.

    http://ashistoriasdeumabipolar.blogspot.com.br/

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  17. Você consegue dar um toque especial na megalomania dos outros, hehe.
    Tem muito politico por aí que se encaixa perfeitamente nesse tipo "louco". Os monstros que eles criam são um pouquinho mais assustadores do que o pobre Frankenstein.

    Tenha um ótimo domingo. Abraço.

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  18. Oi Jac, demorei mas apareci! Ei, esse texto me fez pensar no quanto todos nós temos os nossos monstros interiores. Sei lá... mas, de certa forma, querendo ou não, temos mesmo!

    Sobre seus últimos comentários lá no Umas e outras, JacZinho,
    em relação à maneira como a meninada tem se comportado, sim, o problema está geral. Seja para meninos ou meninas... como vc disse, a gurizada achando que pode se tornar adulto imediatamente.
    Como mãe e super presente, vejo que nosso papel de pais é fundamental para lidarmos com essa situação. Não é fácil, pois a mídia está aí à todo vapor querendo dar pitaco. O problema é que muitos pais estão se eximindo de seu papel. Estão deixando essa função para as babás, as mídias e a escola. E o que é pior? Essa última opção está recebendo a culpa de todas as mazelas. Enfim, muito deve ser feito para que essa realidade mude. Sabe o que percebo, Jac? Essas puladinhas e etapas está fazendo com que tenhamos adultos cheios de problemas. Nada melhor do que uma infância e adolescência saudável e aqui não estou querendo ser moralista. As paixonites são normais(acho que todo mundo teve as suas), porém, estão querendo antecipar muitas coisas para uma fase que deveria ser aproveitada de outra forma.
    Adorei seu comentário... Joicy Vader?? hahahaha... só vc mesmo! Ah, em relação a associação do meu novo Layout com o dia da horta, do supermercado perto de sua casa, ainda estou pensando se lhe perdoarei! hahahahahahahahahahahahh...


    Beijinhosssssssss...

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  19. oi jac sempre bom ler teus textos, e os personagens são a parte mais legal,sempre que puder estarei por aqui se a facudade permiti bjo

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  20. Olá,Jacques!

    Estamos diante de um humor que é totalmente sério. rs
    Afinal a tentativa do Doutor é a de criar um ser perfeito.
    Mas o tiro saiu pela culatra, pois ele utilizou os próprios humanos para criar seu projeto.
    Mas a história continua, com a ciência descobrindo a clonagem e já não é mais ficção. Por enquanto ela é feita apenas com animais. Depois de muitas experiências acabaram sendo aceitas. E as investidas continuam para fazer isso com o ser humano. Por enquanto está aí demonstrada nas ficções, em filmes. Espero que não surja nenhum afoito para realizar essa façanha. Que a investida fique apenas em filmes, para continuar sendo somente humor. rs
    Mas, ainda não assisti nenhum divertido, como é o conto que você fez. Ele nos faz pensar nas artimanhas humanas.

    Abs

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  21. Oi Jacques,
    Rir é a melhor solução pra mim essa noite kkkk, refletir também!
    Na verdade tem cada monstros andando por ai, pra nos assustar.
    Adorei !
    Acho que vou pedir bis! Tem mais! tem mais! Continue!!!
    Abraço e ótima semana!

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