quarta-feira, 11 de junho de 2014

Comédia



- Muito bem, precisamos criar o roteiro para a nova comédia filme do Ben Sandler e o...

- Mas o roteiro nem foi criado ainda e já sabemos qual será o protagonista? Será um filme ou um reality show?

- Filme. Do tipo que ninguém mais aceita fazer.

- Tipo estes onde o sujeito tem a sutileza de hipopótamo epilético e dá em todas as amigas da personagem 
principal com quem ele passa o filme todo discutindo para, no final, ambos descobrirem que estão apaixonados?

- Não, não será uma comédia romântica e nem filme da Jennifer Aniston. Será uma comédia família.

- Hmm. Cheia de situações absurdas, personagens excêntricos e uma lição de moral praticamente incompreensível no final?

- Não, isso é coisa de filme do Wes Anderson ou Woody Allen da década de 70. Estou pensando em algo do tipo cachorro que fala ou brigas entre famílias que não se batem.

- Bem pensado. Elas não se batem porque a violência é algo politicamente incorreto e hoje em dia até um simples “Bom dia!” que você dá em uma língua que não seja a sua já gera desconfiança.

- Não, eu quis dizer não se batem no sentido de não se darem bem uma com a outra.

- E... Porque isso ocorre?

- Pode ser por qualquer motivo, birra por que um quer ter mais canais de tv inúteis do que o outro, tamanho da cerca, número de adesivos de ONGs no vidro traseiro do carro, sei lá.

- Hmm. E que tal uma rixa entre os cães das famílias porque um deles irá para Yale e o outro para Harvard?

- Pode ser. Mas como os cachorros conseguirão entrar na universidade?

- Realismo fantástico! Você sabe, situações absurdas tipo patricinhas vegetarianas angariando fundos para tentar evitar o massacre de alfaces inocentes, mas que, de alguma forma, fazem sentido.

- Não dá. Nosso público alvo nem sabe diferenciar direito O. J. Simpson de Homer Simpson.

- Também não se pode culpá-los, já que a vida do primeiro mais parece desenho animado. E, hoje em dia, celebridades envolvidas em crimes se tornaram quase um clichê. 

- Sim. É cada atuação tenebrosa que merece algumas dezenas de penas perpétuas consecutivas.

- Quase isso. Tudo bem, usaremos cães, então. Mas sem títulos infames como Cãofidências de um Agente, Cachorror em Elm Street ou O Vendedor de Cachurros.

- Aahh. Tem certeza? Estes títulos ajudam a contextualizar o filme.

- Acho difícil, já que o público a que ele se dirige deve achar que “contextualizar” significa alisar algo utilizando um texto.

- Hmm. Concordo. E qual será a lição final do filme? O personagem principal aprenderá que ser humano é muito mais do que apenas seguir seus instintos animais ou que gatos podem ser amigos, mesmo se te morderem forte o bastante para quebrar diamante congelado?

- Mas o personagem principal é um cão!

- Ora, mas que preconceito, hein? Tsc, tsc. Isso aqui é ficção, cara, vale até cotovelada no olho e dedo molhado no ouvido!

- Tá bom. Mas porque não damos aos espectadores o que eles precisam, ao invés do que eles querem?

- Porque aí eles podem desenvolver algo chamado senso crítico e quererem roubar o nosso emprego. Ou até pior.

- Deixarem de assistir nossos filmes?

- Não. Obrigarem-nos a arranjar um emprego de verdade.

  

17 comentários:

  1. Jacques, guri de Pelotas!
    Sempre com tua fina ironia :)
    Em determinado momento do texto, recordei-me de quando trabalhava como arte-finalista e também fazi lay-outs, logormarcas, etc... e alguém me disse que eu não trabalhava, porque desenhar não era trabalho, era diversão... hummm.... então tá! (mal sabia o sujeito que além das 8h de trabalho, eu tinha que completar trabalho que fazia como freelancer nas madrugadas...), pelo visto eu passava quase 24h do meu dia me divertindo :)

    Abração, caro amigo!

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    1. Verdade, Ana... assim como trabalhar em TI é "ficar o dia todo se divertindo no computador" e ser professora na Educação Infantil é "ficar o tempo todo brincando com as crianças". Quanta diversão, não?

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  2. Ahaha...muito boa! Adorei a pretensa definição de "contextualizar", rs..
    Sua ironia fina é sensacional!

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  3. Bom dia , saudades desse espaço
    que faz a gente se sentir bem, gostei do
    texto a ironia é mesmo sensacional rsrsrsr

    Bom final de semana

    └──●► *Rita!!

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  4. Sem preconceito, adorei a "cãofidências".
    Beeijos!!

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  5. Olá, Boa tarde,Jacques
    um filme tem tudo para ser um bom disparador para repertoriar aquelas pessoas que não atrelam o contexto a nossa sociedade, e realmente muitos irão perder seus empregos...têm que se pensar mais , não aceitar imposição sem questionar, sobre as verdades impostas pela sociedade dominante... que procura manipular as pessoas para que não questionem; para que aceitem o que lhes for imposto sem ponderar ou investigar a verdade...
    Obrigado pelo carinho,belos dias,abraços!

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  6. Olá Jacques!

    Amigo que bom que está de volta, eu tb fiquei afastada por motivos de saúde, estou recomeçando.

    Fiquei feliz com sua presença no meu cantinho.

    Quanto ao texto: Não devemos esmorecer diante da manipulação sobre a sociedade( homem) que tem a elite dominante devido ao $ e poder. e haja ONGS para ter prestígio e incentivo do Governo para não fazer nada.

    Tem postagem nova lá no meu cantinho.
    Beijos
    Um belo dia. Nati

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  7. Jacques eu comentei mas não sei se foi publicado. Bjs

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  8. OLÁ AMIGO]
    Gosteido texto muito bem bolado ironia.Obrigado por sua visita no meu cantinho.
    um abraço
    e um feliz feriado
    Ana

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  9. Oi, Jacques!
    O novo está mesmo difícil ou será que é porque nos acostumamos com novidades o tempo todo e não percebemos o argumento de uma criação? Assistimos um filme e o final parece mais importante que todo o enredo. Morreu de quê? :D
    Beijus,

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  10. Adorei seu texto, e como disse a amiga Brisa, eu também o achei bem irônico e muito bem escrito!
    texto com intenção de provocar questionamentos interiores de com relação à sociedade.
    Bjus
    segui e curti sua pg
    http://www.elianedelacerda.com

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  11. OI JACQUES!
    SATÍRICO E CRÍTICO TEU TEXTO.
    ASSIM ESTAMOS, MEROS PASSANTES, SEM NEM SABERMOS O QUE REALMENTE PRECISAMOS, SÓ ACEITANDO O QUE NOS É IMPOSTO.
    ESCRITOS DE PRIMEIRA COMO SEMPRE SABEMOS ENCONTRAR POR AQUI.
    ABRÇS

    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  12. Bah Guri,
    Sou fã do Homer.
    Hipopótamo epilético foi demais.


    O Relativa Seriedade está na festa dos 2 anos do H. E. e O. P.
    Confere lá.

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  13. O final foi épico. Rsrs

    Parabéns pela criatividade, cara. Você é fera!

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  14. OLÁ QUERIDO AMIGO
    Vou ficar ausênte não sei por quanto tempo descobri cálculo biliar na vesícula.Sinto muitas dores, enjoo.
    Agradeço pelo carinho, comentários, amizade,

    forças, ânimo,....

    sem vcs nada teria sentido!!
    Ana

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  15. Este comentário foi removido pelo autor.

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  16. kkkk lembrei de uma amiga que confundi tbm O.J com Homer.
    Otimo texto, devemos questionar sempre, pena que a maioria não o faz.

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